terça-feira, 11 de novembro de 2014

Sofisticação gerencial do crime cibernético desafia as empresas

A superioridade técnica e administrativa das organizações criminosas frente ao estágio atual das defesas cibernéticas é real.

Já há algum tempo, especialistas em segurança digital e a mídia dedicada ao assunto veem reportando uma impressionante evolução da competência tecnológica do crime digital, que age tanto de forma global como localizada.
Tecnologias novíssimas e complexas, como a engenharia social aplicada às redes sociais (utilizando semântica, gramática e análise de vínculos) e o uso de “clusterização” de milhares de máquinas escravas para o processamento colaborativo de grandes massas de dados, são apenas alguns dos exemplos de um patamar de excelência que a maior parte das empresas – e mesmo governos nacionais – ainda está longe de dominar e que já integram o arsenal do crime cibernético.
Mas a novidade mais surpreendente, que começa a ser revelada, é a sofisticada visão gerencial dos grupos criminosos, envolvendo a aplicação de técnicas e conceitos ainda fora do alcance da maioria das empresas. Inclui-se aí também o outsourcing de serviços para ataques em massa, através do qual a alta bandidagem arregimenta mão de obra altamente especializada no submundo da web para a produção de ferramentas de ataque.
A lista é extensa, abrangendo, por exemplo, a adoção de ferramentas de BPM (Business Process Management) para a gestão dos ataques e monitoramento de sua produtividade e o emprego de modelos de aquisição de malwares no modelo “software as a service”. Neste último exemplo específico, recentemente especialistas norte-americanos da empresa Loockout descobriram uma central de crimes cibernéticos na Rússia que tem por prática “alugar” componentes de malware para que outros criminosos possam produzir artefatos digitais voltados para múltiplas funções, como a violação de dados, sequestro de informações, desvio de “Bitcoins”, roubo de senhas, invasões a tesouros de dados ou controle remoto de smartphones de milhares de usuários para a prática de outros e outros crimes.
Nesse modelo “malware as a service” descrito pela Loockout, os contratos de parceria para o crime acontecem em sombrios canais clandestinos da Internet. Não obstante, sua pescaria de “incautos” ocorre exatamente na via pública da World Wide Web onde, nós cidadãos honrados, estabelecemos nossos relacionamentos e nossas transações de negócios.
Além disso, os novos bandidos virtuais não localizam seus comparsas de maneira aberta, ainda que nessas zonas escuras. Eles constituem listas “top secret” de conhecimento exclusivo dos próprios grupos criminosos, que trocam “figurinhas” entre si. E é nessas listas fechadas que eles compõem seu metier e realizam seus consórcios. Uma vez apto para o ataque, através de códigos de terceiros, acessados em nuvem, o atacante ‘cliente’ entrega parte de suas vítimas para o fornecedor da “solução” e assim está caracterizada uma sofisticada confraria.
Se rastrear e identificar um atacante individual, ou desbaratar um grupo específico especializado na produção de códigos maliciosos, já era uma tarefa hercúlea para as autoridades e empresas, imagine a situação atual, em que o originador do crime se vale de formas indiretas de atuação, de tão difícil mapeamento.
A tudo isto se acrescenta o reluzente mercado de armas cibernéticas, de toda espécie, a partir das quais se pode atacar tanto uma usina hidrelétrica quanto uma rede de farmácia, um usuário de cartão ou uma transportadora de valores.
Com o dispêndio de alguns dólares, é possível a qualquer aventureiro adquirir malwares para roubo de informações de cartão de crédito e, em seguida, vender estas informações no submundo para outros marginais cibernéticos ou, simplesmente, atacar as vítimas e obter dividendos diretos. A diversificação dos negócios e a definição de “nichos” de preferência dos agentes é outro sinal preocupante do amadurecimento do crime, por tornar ainda mais difícil e complicado o rastreamento e o desmantelamento desses grupos.
Constata-se, em outras palavras, que certas práticas organizacionais, ainda em fase de consolidação em grande parte das empresas, encontram-se hoje num estágio próximo à banalização nas comunidades do crime cibernético.
A situação é, portanto, de ameaça constante para todo o sistema cibernético global, mas é especialmente dramática para a pequena e média empresa, cuja capacidade financeira e cultura organizacional estão inegavelmente aquém desse poder de ataque, aqui descrito apenas em alguns de seus aspectos.
E enquanto as grandes empresas e governos se protegem, na base de investimentos cada vez mais expressivos em ferramentas, pessoas e consultorias; estas partes mais vulneráveis do elo de conexão da Internet acabam contaminando toda a cadeia de produção por encontrarem-se umbilicalmente ligadas às maiores redes globais de negócio. Isto porque, como sabemos, a economia atual, como um todo, processa-se, essencialmente através de meios eletrônicos.
É assim que a barraca de feira, por exemplo, ou a academia de ginástica (com seus baixos níveis de criticidade informacional ou financeira) acaba por transmitir altas doses de insegurança às redes internacionais de pagamento por cartão, anulando assim o efeito prático de milhões e milhões de dólares empregados em segurança.
Perfeitamente cientes desses fatos, a indústria de pagamentos e o setor de segurança, bem como as grandes corporações e governos, desenvolvem constantemente mecanismos e processos para a disseminação das práticas seguras, e tentam levá-las rigorosamente a todos os pontos da cadeia. Aí estão no mercado normalizações como o PCI-DSS, que busca equacionar a questão da segurança no núcleo e nas pontas do processo, e uma infinidade de normas como a ISO 27000 e suas variantes.
São inúmeras e bem estruturadas iniciativas técnicas, com grande efetividade estratégica, ao menos do ponto de vista teórico. Mas concretizá-las, de fato, requer uma democratização mais profunda do acesso à tecnologia e – principalmente – a ferramentas gerenciais do dia a dia que, vamos admitir, ainda não estão ao alcance da grande massa dos agentes econômicos.
A boa notícia, contudo, é que os novos modelos de entrega de aplicações e serviços de segurança na nuvem começam a criar escala para que os provedores mais bem estruturados possam lastrear soluções compatíveis com a realidade das empresas como um todo.
Esta nova classe de provedores, inicialmente planejada para atender a elite dos mercados, e com todo o preparo necessário para a permanente evolução e atualização frente aos avanços do padrão do crime, será em breve reconhecida como um importante fator de amadurecimento da segurança global da Internet.
Esse desenvolvimento combinado poderá representar um importante ganho estratégico, até mesmo na perspectiva da defesa nacional. Algo bastante positivo nesse momento em que os órgãos voltados para a segurança e soberania estão mobilizados justamente para criar uma base nacional (brasileira) de conhecimentos e dispositivos que nos permitam fazer frente à fragilidade cibernética também no seu aspecto macropolítico.
É através deste modelo que o conjunto das empresas, no Brasil, poderá dar um salto expressivo de prevenção, proteção e documentação dos incidentes de rede, permitindo também um maior compartilhamento de alertas, experiências e descobertas entre os mais diversos agentes públicos e privados em função da segurança da rede.
Cabe ao governo brasileiro encarar com a máxima atenção o caráter estratégico desse segmento emergente. Seja promovendo políticas de fomento à sua evolução tecnológica, seja colaborando ele mesmo (o setor público) com o aprimoramento das competências que são articuladas em sua cadeia de produção.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Estudo do Ipea (1850) sobre as ações da área de Defesa no Brasil

Em julho deste ano, o Ipea publicou um documento muito interessante sobre o resultado atual das ações realizadas para aumentar o nível de segurança do país.


pesquisa faz um estudo comparativo entre alguns países e o Brasil, sendo uma leitura obrigatória para quem tem a missão de construir uma segurança diferenciada no mercado. 

Boa leitura.


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Psicoterapia online: uma alternativa de atendimento

Percebo que há muito tempo se fala sobre a Internet, de suas vantagens e a respeito do que ela pode trazer de novo para o mundo. A cada dia que passa, as aplicabilidades da rede expandem seus horizontes. Recentemente, participei de um projeto de psicoterapia junto ao Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UnB), no qual meu desafio era estabelecer um ambiente seguro para as consultas.

A psicoterapia online, apesar da incipiência das pesquisas, da ausência de regulamentação e dos receios que suscita por ser fenômeno ainda pouco conhecido, vem sendo praticada, mesmo à revelia das instâncias reguladoras, por força da demanda de uma sociedade informatizada. A pesquisa desenvolvida no Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UnB) em torno desse tema analisa, especificamente, a possibilidade de construção de vínculo terapêutico quando os atendimentos são feitos exclusivamente pela Internet, por meio do programa Skype.  

Muitos estudos ainda precisam ser realizados até que esse serviço psicológico venha a ser autorizado no Brasil, embora já seja prática permitida em países da Europa, nos Estados Unidos e no Canadá. Acredita-se que com a realização de mais pesquisas, em breve, também nós do Brasil poderemos contar com a Internet como ferramenta para atendimentos psicológicos que vão além de orientações ou aconselhamentos. 

A pesquisa em curso na UnB, de  título Psicoterapia online em atendimentos síncronos e a construção do vínculo terapêutico,  está na fase de coleta de dados, ou seja, estão sendo realizadas sessões de psicoterapia pelo Skype com sujeitos de pesquisa rigorosamente selecionados. O estudo conta com o suporte técnico da Aker Security Solutions no que diz respeito à segurança das comunicações. De acordo com a pesquisadora responsável pelo estudo, Carmelita Rodrigues, esse apoio foi condição sine qua non para que o projeto fosse levado adiante, tendo em vista a preocupação que existe em pesquisas envolvendo seres humanos de não provocar danos às vidas alheias. 

Entende-se que psicoterapia online é um tipo de atendimento psicológico que apresenta vantagens e desvantagens, como ocorre com quase todos os fenômenos da vida humana, principalmente os inovadores. Entre as desvantagens apontadas está o receio da quebra de confidencialidade, isto é, o receio de que haja divulgação indevida do conteúdo das sessões realizadas por intermédio da rede. No entanto, é possível minimizar os riscos e até tornar o trabalho seguro, com alguns cuidados simples, tanto do lado do terapeuta quanto do lado do paciente.

Podemos minimizar, então, essas questões com algumas dicas simples, de baixo investimento e acessíveis a toda a população. São elas::

a. Utilizar computador com sistema operacional atualizado (com todas as correções disponibilizadas pelo fabricante) e programa de antivírus também atualizado e ativado;
b. É recomendável que o computador por meio do qual as sessões sejam realizadas seja de uso exclusivo. Caso não haja essa possibilidade, deve-se criar um login de sistema operacional exclusivo para tal finalidade (usuário e senha de sistema operacional específicos), sem direito de administração. O login de administrador da máquina só deve ser usado para a configuração do computador. Esta recomendação pode ser utilizada no dia a dia para outras tarefas;
c. No caso das sessões online serem realizadas por meio de conexão via Skype,  deve-se criar um login específico para essa finalidade;
d. O login não pode conter elemento(s) que permita(m) ou facilite(m) a associação com o nome do paciente, de modo a dificultar sua indentificação por pessoas alheias ao atendimento;
e. Não divulgar esse login para terceiros;
f. Impedir que terceiros tenham acesso ao login;
g. Não gravar a senha de acesso do Skype no computador, nem configurar para entrada automática no login;
h. Manter as configurações de criptografia, autenticação e segurança em seu nível máximo oferecido pelo software e pelo sistema operacional;
i. As sessões somente poderão ser realizadas em ambiente isolado, estando o paciente sozinho(a), sem a presença de outrem, a portas fechadas, de modo a não permitir acesso de terceiros; 
j. O ambiente deve estar suficientemente iluminado, de modo a permitir a identificação dos participantes da conversa; 
k. O(a) terapeuta-pesquisador(a) deverá adotar as mesmas medidas preventivas e idênticos cuidados relativos a login, configuração do computador, conexão e isolamento, citados nos itens acima;
l. Deve ser desabilitada toda e qualquer ferramenta de gravação disponível pelo software do Skype ou qualquer outro software de terceiros.

A pesquisa da UnB adotou essas recomendações em um termo de compromisso firmado entre o terapeuta e seu paciente, configurado como instrumento jurídico voltado para a segurança na relação terapêutica.

No entanto, são recomendações que também podem ser utilizadas no dia a dia. E caso você não saiba como conduzir essas questões tecnicamente, deve solicitar o auxilio de um técnico.

Acredito que a terapia pela Internet é uma realidade factível para a maioria das pessoas, facilitando o acesso ao profissional, que pode estar em qualquer lugar do país, e trazendo praticidade ao paciente, que não necessitará perder horas se locomovendo. Pode igualmente ser adequada para pessoas com dificuldade de locomoção, como pessoas com fraturas ou usuárias de cadeiras de rodas ou, ainda, mães com recém-nascidos impedidas de sair de casa, entre outras situações limitadoras. Também favorece pessoas muito tímidas, para quem a relação terapêutica presencial pareça ameaçadora.

Para saber mais:
Carmelita Gomes Rodrigues
Psicóloga Clínica e Analista Junguiana
Tel: +55 61 9972-6076
E-mail: carmel.gr@gmail.com
Blog: http://psicopauta.wordpress.com
Site: http://www.psiqueonline.net/